Avaliação de aspectos socioambientais e de governança corporativa ganha espaço na análise de cedentes de fundos estruturados, à medida que investidores institucionais brasileiros e estrangeiros ampliam a exigência por critérios ESG na alocação de recursos em crédito privado
A incorporação de critérios ambientais, sociais e de governança corporativa, reunidos sob a sigla ESG, deixou de ser uma exigência restrita a grandes emissores de ações e debêntures negociadas em bolsa para também ganhar espaço na análise de operações de crédito estruturado. Investidores institucionais brasileiros e estrangeiros, como fundos de pensão e gestoras internacionais, têm ampliado a exigência por informações relacionadas a práticas de governança e responsabilidade socioambiental antes de alocar recursos em fundos de crédito privado, movimento que se reflete diretamente na forma como administradores fiduciários avaliam os cedentes de um FIDC.
Diferentemente da análise financeira tradicional, focada na capacidade de pagamento e no histórico de crédito de uma empresa cedente, a avaliação de critérios ESG busca compreender aspectos como a governança corporativa da companhia, suas práticas trabalhistas e o eventual impacto ambiental de sua atividade, informações que passam a compor, de forma complementar, o processo de due diligence realizado antes da entrada de um recebível na carteira de um fundo estruturado.
Governança corporativa do cedente ganha peso na análise de risco
Entre os critérios ESG avaliados na estruturação de um FIDC, a governança corporativa do cedente costuma receber atenção prioritária, por estar diretamente relacionada à qualidade da informação financeira disponibilizada ao administrador fiduciário e ao gestor do fundo. Empresas com processos decisórios mais transparentes e com controles internos mais estruturados tendem a apresentar menor risco de inconsistências na documentação dos recebíveis cedidos, fator que impacta diretamente a confiabilidade da carteira do fundo.
Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a incorporação de critérios ESG à due diligence de crédito estruturado responde a uma mudança real na forma como investidores avaliam risco.
“Cada vez mais, investidores institucionais querem entender não apenas se um cedente tem capacidade financeira de honrar seus compromissos, mas também como ele se relaciona com colaboradores, fornecedores e com o meio ambiente em que opera. Isso não substitui a análise financeira tradicional, mas se soma a ela como uma camada adicional de informação relevante para a tomada de decisão do investidor”, avalia o executivo.
A ID CTVM incorpora a avaliação de critérios socioambientais e de governança ao processo de qualificação de cedentes em fundos estruturados sob sua administração, sempre que solicitado pela gestora responsável pelo fundo ou previsto no regulamento da estrutura, complementando os processos tradicionais de auditoria de lastro e conciliação de informações financeiras.
Ausência de padronização ainda é desafio para o mercado
Um dos principais desafios da incorporação de critérios ESG à análise de crédito estruturado no Brasil é a ausência de uma metodologia única e amplamente aceita pelo mercado para mensurar e comparar o desempenho socioambiental de diferentes cedentes. Enquanto grandes companhias listadas em bolsa costumam publicar relatórios de sustentabilidade auditados por terceiros, empresas de médio porte que recorrem a FIDCs para financiar capital de giro nem sempre dispõem de estrutura para produzir esse tipo de informação de forma padronizada, o que exige dos administradores fiduciários e gestores certa flexibilidade metodológica na coleta e na avaliação desses dados.
Ainda assim, o acúmulo gradual de informações socioambientais ao longo de diferentes operações permite que administradores fiduciários desenvolvam, com o tempo, referências internas mais consistentes para comparar o desempenho de cedentes de um mesmo setor, aproximando a análise ESG de crédito estruturado do nível de maturidade já observado em outras classes de ativos do mercado de capitais.
Setores como o agronegócio e a infraestrutura, já habituais na carteira de FIDCs brasileiros, costumam concentrar boa parte das exigências socioambientais mais específicas, dado o potencial impacto ambiental direto de atividades como a produção agrícola e a construção de grandes empreendimentos. Nesses casos, a due diligence ESG tende a incorporar critérios adicionais, como o cumprimento de licenças ambientais e a regularidade de práticas trabalhistas ao longo da cadeia produtiva do cedente.
Demanda institucional deve ampliar a exigência por critérios ESG
Com fundos de pensão e demais investidores institucionais ampliando a alocação de recursos em crédito privado estruturado, a exigência por informações socioambientais e de governança tende a se tornar mais frequente nos regulamentos de novos fundos, especialmente naqueles voltados a investidores com políticas de investimento responsável já consolidadas. Esse movimento acompanha uma tendência observada em outras classes de ativos do mercado de capitais brasileiro, na qual critérios ESG deixam de ser um diferencial e passam a integrar, de forma cada vez mais recorrente, os processos padrão de análise de risco.
Perspectivas para a governança socioambiental no crédito estruturado
À medida que o mercado de capitais brasileiro amplia a maturidade de suas práticas de governança, a tendência é que a avaliação de critérios ESG deixe de ser tratada como um processo adicional e passe a integrar, de forma orgânica, a due diligence padrão de operações de crédito estruturado. Para administradores fiduciários, essa evolução reforça a importância de equipes técnicas capazes de dialogar tanto com a análise financeira tradicional quanto com os critérios socioambientais e de governança cada vez mais exigidos por investidores institucionais.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
