Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, pondera que a relação entre seres humanos e animais tem uma dimensão terapêutica que a ciência começou a investigar sistematicamente nas últimas décadas, acumulando evidências que transformaram a zooterapia de prática intuitiva em intervenção com respaldo clínico crescente. No cuidado ao idoso, especialmente em contextos de institucionalização e isolamento social, o contato estruturado com animais produz efeitos sobre ansiedade, depressão e solidão que a medicina convencional ainda subutiliza de forma expressiva.
Vamos explorar o que acontece quando um animal entra na rotina de cuidado do idoso e por que esse encontro tem tanto a oferecer.
Os mecanismos fisiológicos por trás do efeito terapêutico
O contato físico com animais, especialmente o ato de acariciar um cão ou um gato, desencadeia a liberação de ocitocina, o hormônio associado ao vínculo afetivo e à sensação de segurança, com redução simultânea dos níveis de cortisol, o principal marcador biológico do estresse. Esse efeito, mensurável por meio de exames laboratoriais, não é subjetivo nem placebo: é uma resposta fisiológica documentada que produz redução da frequência cardíaca, da pressão arterial e da tensão muscular em questão de minutos após o início do contato.
Como detalha Yuri Silva Portela, no idoso esses efeitos são amplificados pela convergência de fatores específicos da terceira idade. A privação de contato físico afetivo, comum em idosos que vivem sozinhos ou institucionalizados, torna o toque do animal uma fonte de estímulo sensorial e emocional de valor clínico real. A previsibilidade e a incondicionalidade da resposta do animal ao idoso, que não julga, não critica e não tem expectativas, cria um vínculo de segurança que muitas relações humanas, paradoxalmente, não conseguem oferecer com a mesma consistência.
Evidências clínicas sobre ansiedade, depressão e solidão
Estudos controlados com idosos em instituições de longa permanência demonstram que sessões regulares de terapia assistida por animais produzem reduções significativas em escores de ansiedade e depressão, com efeitos que se mantêm nas avaliações de seguimento realizadas semanas após o término das intervenções formais. A solidão, medida por escalas validadas, também apresenta redução consistente em idosos que participam de programas de zooterapia, com relatos de maior senso de conexão e de propósito associados ao cuidado do animal.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, um aspecto particularmente relevante dessas evidências é o perfil de pacientes que mais se beneficiam: idosos com demência leve a moderada, que frequentemente não respondem às intervenções verbais convencionais de estimulação cognitiva, demonstram engajamento espontâneo, sorriso e vocalização em presença de animais, sugerindo que o vínculo com outras espécies acessa circuitos emocionais preservados mesmo em fases avançadas do declínio cognitivo.
Zooterapia em contextos domiciliares e comunitários
A terapia assistida por animais não se limita ao ambiente institucional. Em contextos domiciliares, a presença de um animal de estimação próprio está associada a menor prevalência de depressão, maior nível de atividade física relacionada ao cuidado do animal e maior frequência de interações sociais mediadas pelo animal em espaços públicos. Para o idoso que vive sozinho, o animal de estimação frequentemente representa a principal fonte de rotina estruturada, de contato físico e de responsabilidade cotidiana que sustenta o senso de utilidade e de propósito.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, é fundamental que a recomendação de um animal de estimação para um idoso considere sua capacidade funcional real de cuidar do animal, os recursos financeiros disponíveis para alimentação e veterinário e o suporte familiar para situações em que o idoso não possa temporariamente exercer esse cuidado. Uma recomendação mal avaliada pode converter um recurso terapêutico em fonte adicional de ansiedade e sobrecarga.
Implementação em programas de saúde comunitária
Incorporar a zooterapia a programas de saúde comunitária voltados ao idoso é uma iniciativa de baixo custo e alto impacto que não exige infraestrutura sofisticada. Parcerias com ONGs de proteção animal, treinamento de voluntários com animais certificados e integração de sessões de terapia assistida por animais a centros de convivência são formatos acessíveis que democratizam o acesso a uma intervenção com evidências sólidas de benefício.
Yuri Silva Portela conclui que reconhecer a zooterapia como componente legítimo do cuidado geriátrico é ampliar o conceito de medicina para além dos muros do consultório, em direção a uma prática que cuida do ser humano em toda a sua complexidade afetiva, social e biológica.
